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COISANDO..."Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira." [Manoel de Barros] |
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December 17 O grande Edgar, Luis Fernando VeríssimoNós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor um doente do que um vagabundo. E se ela não acreditasse, e nos mandasse ir à escola de qualquer jeito, ainda tínhamos um trunfo sentimental. "Então vou ter que inventar uma história para a professora", querendo dizer vou ter que mentir para outra mulher como se ela fosse você. "Está bem, fica em casa estudando!" E ficávamos em casa, fazendo tudo menos estudar, dando-lhe todas as razões para dizer que não nos agüentava mais, que é outra coisa que mãe também adora. A primeira namorada. Mentíamos para preservar nosso orgulho, certo? — Não, não, eu estava passando por acaso. Você acha que eu fico rondando a sua casa o dia inteiro, é? Mas o que vocês pensariam se nós disséssemos: "Sim, sim, não posso ficar longe de você, penso em você o dia inteiro, aqueles telefonemas que você atende e ninguém fala, sou eu! Confesso, sou eu! Vamos nos casar! Eu sei que eu só tenho 12 anos e você tem 11, mas temos que nos casar! Senão eu morro. Senão eu morro!"? Vocês se assustariam, claro. A paixão nessa idade pode ser um sumidouro. Mentíamos para nos proteger do sumidouro. Outras namoradas. Outras mentiras. — Eu só quero ver, juro. Não vou tocar. Vocês não queriam ser tocadas, mas ao mesmo tempo se decepcionariam se a gente nem tentasse. Nem desse a vocês a oportunidade de afastar a nossa mão, indignadas. Ou de descobrir como era ser tocada. Namorar — pelo menos no meu tempo, a Renascença — era uma lenta conquista de territórios hostis, como a dos desbravadores do Novo Mundo. Avançávamos no desconhecido, centímetro a centímetro, mentira a mentira. — Pode, mas só até aqui. — Está bem. Não passo daí. — Jura? — Juro. — Você passou! Você mentiu! — Me distraí! Dávamos a vocês todos os álibis, todas as oportunidades para dizer depois que tudo acontecera devido à nossa calhordice e não à vontade que vocês também sentiam. Não mentíamos para vocês, mentíamos por vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram os que enganavam as mulheres. Os calhordas diziam, abjetamente, a verdade. Não faziam o que juravam que não iam fazer, transferindo toda a iniciativa a vocês. É ou não é? Mas isso tudo mudou, desgraçadamente bem quando eu deixei para trás as tentações do mundo e entrei para uma ordem (a dos monógamos). A revolução sexual, que um dia ainda vai ser comemorada como a Revolução Francesa, com a invenção da pílula anticoncepcional correspondendo à queda da Bastilha e o fim dos sutiãs ao fim da monarquia — e o termo sans culotte, claro, adquirindo novo significado — tornou o relacionamento entre homens e mulheres mais franco e desobrigou os homens de mentir para as mulheres para salvar a honra delas. Aliás, dizem que a coisa virou de tal maneira que hoje a mentira mais comum dita pelos homens é "Esta noite não, querida, estou com dor de cabeça". Não sei. Mas continuamos mentindo a vocês para o bem de vocês. "Rmmwlmnswl" não significa que nós estamos fingindo dormir com medo de ir ver que barulho é aquele na sala. Significa que estamos fingindo dormir para que você vá ver com seus próprios olhos que não é nada e pare com esses temores ridículos, e se for mesmo ladrão nos avise a tempo de pular pela janela. "Fiquei fazendo companhia ao Almeidinha, coitado, ele ainda não se refez" significa que a nova gata do Almeidinha só saía com ele se ele conseguisse um par para a prima dela, e nós fazemos tudo por um amigo, mas não queremos estragar a ilusão de vocês de que a separação deixou o Almeidinha arrasado, como ele merecia. "Está quase igual ao da mamãe" significa que não chega aos pés do que a mamãe fazia, ou então que está muito melhor, mas que o importante é vocês não se sentirem nem tão ressentidas que decidam atirar o doce na nossa cabeça e depois se arrependam, nem tão confiantes que parem de tentar ser iguais à mamãe, e no dia que a gente disser que está sentindo uma coisa estranha bem aqui, só para não ir trabalhar e ficar vendo o programa da Xuxa, vocês não digam "Comigo essa não pega" e nos botem para a rua. [Publicado em "As Mentiras que os homens contam"] July 05 DAS VANTAGENS DE SER BOBO- O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. - O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." - Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. - O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. - Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. - O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. - O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoievski. - Há desvantagem, obviamente: Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. - Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. - O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. - Aviso: não confundir bobos com burros. - Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?" - Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! - Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu. - Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. - O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. - Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. - Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. - Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. - Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! - Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cimas das casas. - É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
January 17 Quase cuRtura, by Millor
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January 08 L'amour![]() Hoje vou falar sobre o amor (só que, como se vê, não encontrei um bom título pra coisa e foi esse mesmo, que se pode pronunciar com biquinho, fica bonito). Não quero saber se é bom ou ruim; bonito ou feio. Isso depende do estágio em que se encontra ou se é amor mesmo. Digo isso porque de vez em quando a gente se empolga quando vê alguém pra lá de perfeito (seja lá o que isso significa) e pensa que é amor, mas é só empolgação mesmo. Já o amor (nem sei se conheci, mas sei de tanto ouvir falar) é um bicho estranho, quase como amizade, só que com uma pitada de loucura e várias de atração física (ou seria o contrário?). Tem gente que acredita em amor à primeira vista, coisinha um tanto quanto novelesca, a meu ver. E olha que conheço um casal, que está unido pelos laços do matrimônio - pra não dizer casado - há mais de quarenta anos e dizem que foi assim, coisa de bater o olho, comprar e levar pra casa. Eu, com todo meu ceticismo e gosto por coisas complicadas, acredito que eles tenham se empolgado, acabaram por se acostumar à companhia um do outro (naquela época dava tempo pra se acostumar), um belo dia sentaram pra conversar, tornaram-se amigos e, finalmente, amaram-se. Ou não. Quem sabe? Talvez só estejam mesmo acostumados.
Na primeira vez que achei que estava amando, meu mundo caiu, da noite pro dia. Da noite pro dia porque só caiu mesmo quando me dei conta, num daqueles momentos perigosíssimos, de auto-análise, bem no meio duma prova de matemática. Acho que, se não pensasse demais (o que pode não ser exatamente pensar muito, mas por muito tempo), nada disso teria acontecido. Mas, pensando bem, até que me saí bem na prova...
Na última, e segunda vez, foi igualzinho, mas com um pequeno diferencial, típico de gente como eu (como eu, como?): foi de propósito. Queria gostar de alguém que gostasse de mim, respeitasse, ouvisse, blá blá blá. Tropecei na pobre vítima, que estava bem ali no meio do caminho, nem tinha como passar sem levar um capote. O fato é que me convenci porque quis me convencer e, como todo paranóico, quando acha alguma coisa ou que deve se convencer de algo, acaba mesmo achando ou se convencendo de tal. Só não digo que fim levou porque, como diria sei lá quem, "o jogo só acaba quando termina". E o jogo só termina quando a “comadre” acaba por soar seu apitinho...
O fato é que, de acordo com minha experiência, o amor é fruto das nossas vontades, querenças, confusões e complicanças. Tanto é que passa. Não é como o amor materno (este sim, amor), que é inerente às mamães, quer queira, quer não. O danado do filho morre, passa décadas e lá está a pobre coitada choramingando, caindo aos pedaços. A gente não. Vem um amor, termina e a gente só quer terminar junto. Daí vem o vento trazendo outro, que sopra, sopra e acaba por terminar também, dando lugar a outra planta qualquer. January 06 Passou!!!Lá se foi natal, lá sei foi ano novo, lá se foram os parentes!
Agora começa tudo novamente e daqui a pouco já é dezembro e começamos a nos perguntar pra onde foi o ano! É assustador, mas é lindo. Se angustiar quando o tempo nos escorre por entre os dedos ou se desesperar por poder fazer dele o que bem entender e não saber por onde começar. Não sei por onde começar, nem como, muito menos o que ou por que. Mas cansei de ficar parada, parece que tem uma formiguinha que não pára de me morder. Sinto que preciso fazer alguma coisa, me mexer, correr atrás do tempo, que tem pressa e não espera por ninguém. Como se algo estivesse pra acontecer e eu não pudesse perder...
Creio que não é só comigo. Ano novo provoca essas coisas na gente. Ano novo, aniversário... Enchemos o peito de esperanças e projetos que, lá no fim, transformam-se em, nada mais, nada menos que frustrações. É sempre assim. Entra ano, sai ano, nada muda. Não importa o que façamos, o quanto nos esforcemos, nada está bom, nada é o bastante. E, a cada ano, aumentam os projetos e, em razão disso, as frustrações. É um ciclo vicioso. Como o ser humano é imbecil!
Fico angustiada sim, mas estou aprendendo. Esse ano, como escrevi (e, por milagre, cumpri), fiz tudo diferente. Se gostei? Não importa. Fiz o que deu na veneta, tudo diferente. Foi bom? Não importa. Saí correndo, descabelada, feito louca, atrás do tempo que não volta mais. Adiantou alguma coisa? Não faço a mínima. Mas e daí? O tempo está passando, a gente parado, feito besta.
Faço. Certo ou errado, tanto faz, mas faço alguma coisa.
Ah, a imbecilidade é uma benção... Ainda bem que daqui a pouco tem páscoa, com muito chocolate! |
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